Prosa

Garoto Oceano

Não há como desejá-lo sem afogar-se.

Quando lançar-se em seus braços, você entenderá porque não pode abraçar o oceano: quando ele não escapa dos teus braços, te puxa para os densos mistérios que a luz do dia é incapaz de narrar. E que erro cruel o homem comete quando acredita ser Odisseu. Não adianta decifrá-lo de fora, pois cada visão que ele lhe permitir, será apenas mais uma máscara de cada um dos monstros marinhos que habitam em sua alma ululante. Tolo é o homem que constrói o barco, carrega-o de suprimentos e lança-se nele, crente de que poderá navegar. Pois seus átomos são feitos das escamas das sereias, do tridente de Netuno, das relíquias esquecidas no fundo do mar.

É impossível salvar-se. Coletes salva-vidas, tubos com oxigênio e botes são ineficazes em seus domínios. Quando ele ama, até mesmo os tubarões se escondem. Quando ele beija, as conchas se abrem para admirá-lo. Não há como tê-lo por segundos sem perder-se para sempre.

Aos que buscam o rio: as Naíades; aos que querem o mar: o Leviatã. Se precisas de amor superficial e atenção para preencher teu ego, um copo d’água derramado ao chão cai bem, oh Narciso. Por que em seu reino não é permitido andar sobre as águas, a lei é penetrá-las; não é sábio boiar ou procurar fora. Seus domínios são densos, escondidos, lisérgicos. Sua existência não foi feita para aqueles que querem, mas para os que podem. E se queres seu amor, prontifique-se a pular do navio sem olhar para trás, pois diferente de ti, ele não é uma gota, mas o próprio oceano.

É impossível amá-lo, sem naufragar.

Anúncios