O QUE EU ESPERO ENQUANTO EU TE ESPERO NA SALA DE ESPERA

Eu esperei o teu bom dia.

Todas as vezes antes, entre e depois de acordar. Entre as garfadas, os rascunhos e o pornô. Eu esperei um simples “E aí, como vai?”, mas nenhuma de suas palavras chegou. A cada vibração, cada notificação e luz de tela, pintei aquarelas com as lembranças que borbulhavam de meu terceiro olho, orei aos deuses para que eu não ficasse louco, mas o teu beijo, o teu chupão, a tua mão, foi que tornou a pintura bela. E em cada fração de segundo, milésimo e acréscimo, dos minutos que escorreram pelas minhas mãos quando estiveram em teu corpo, oh meu bem, você é rock’n roll, você me deixa louco, e eu continuo esperando tua ligação, uma mensagem, uma curtida no Facebook, por mais simples que seja, só para nutrir e saciar minha compulsão sentinela.

Eu esperei a tua poesia.

Dois anos sem escrever-te, telas brancas e letras de teclado, eu tentei, eu rabisquei, eu quebrei tudo e cada pardo. Oh meu amor, eu estou tão irado! Por que rezei, porque falhei, porque te vivi em cada trago. E de boca em boca e coração em coração, eu toquei mil só para sentir tua mão, eu vivi cem só pra te viver um milhão, eu beijei dez só para sentir um doze avos da tua fração. Mas quando a poesia veio e eu senti um colapso, colhi os manuscritos do chão, apanhei meu compasso, prometi a mim no espelho que te escreveria com frequência. Parei de esconder que sofro daquela doença, de falar demais, de sentir demais, de ser a diferença, mas por vezes esqueci que eras tu, o remédio da minha carência. E não quero promessas, não quero teu barulho, não quero teu latim. Se me perguntarem o que quero eu de tu, eu direi “por mim, nada dali quero tirar senão todo o reino”, oh meu amor, deixe-me ser seu cavaleiro, de paus, de copas, de ouros e de espadas; alcunha-me bandeirante, permita-me abrir tuas estradas, enfio bandeiras, faço alianças e te prometo o eterno. Em cada verso, em cada resto, em cada imerso da imensidão de minha alma e a imortalidade da tua lembrança, eu jurei, meu amor, que eu seria eternamente criança, e não retornaria às páginas brancas que me formaram; mas como, eu digo como, pergunto como, eu ignoraria a minha musa dourada? Como eu regrediria ao pó e ao mero nada, se dele tu me formates e acendestes a chama da poesia? Oh, meu amor, cada palavra tua é uma orgia, e cada verso teu uma perdição. Quando escrevo uma poesia eu quero escrever um milhão, um milhão de vezes em teu corpo que não estou satisfeito e dobro a aposta, viu meu amor, eu espero tua resposta, do beijo que tu roubou e e eu esqueci em tuas costas.

Eu esperei tuas respostas.

Pensei: o que escreveria? Mas tive medo do que viria. Pensei: como seria interpretado? Então deixei o poema calado, mas aí lembrei do teu gênio aquário. Por que queria eu as respostas, se não tinha as perguntas? Por que queria eu a poesia, se não tinha ainda as rimas? Por que esperei os teus bons dias, se eu vivo a noite? Então me calei, me recolhi, apanhei o meu açoite, até perceber que não há nada mais incrível do que o teu momento. Queimei em brasas, ascendi aos céus, vivi o mundo num único pensamento, que se dissipou entre a tua chegada e a minha saída, saudei os meus, saudeis os teus, saudei toda e qualquer Maria. Então decidi que era hora, não era antes, não será depois, será agora. Peguei o papel, peguei a caneta, e te escrevi uma carta. Ela assim começa: oh tu, alma relapsa (e ingrata), se tu não me escreves, eu te dispo no papel, vou te mostrar o inferno, para que vivas no meu céu, no céu da minha boca, onde tu, abelha, produz o mel.

E eu te espero a cada dia.

Oh meu amor, não me deixe em pedaços. Oh meu amor, não me faça te esperar a cada dia. Oh meu amor, não me faça descobrir teu nome, senão vou no cartório, e ordeno que te (re-)registrem pela alcunha de poesia.

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